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Criança não mente! Será?

Quantas vezes já ouvi a expressão “criança não mente”, dita com convicção e confiança? Pois é, mas tenho o desafio de conscientizar professores, pais e mães de que sim, a criança mente!

Essa afirmação é possível primeiro porque o conceito de verdade e mentira ainda é muito elaborado para a compreensão infantil. Logo, um indivíduo não pode se comprometer conscientemente com algo que sequer conhece. Segundo, a criança não tem noção de justiça, então não consegue perceber as consequências de suas afirmações.

Além disso, a criança ainda tem um pensamento egocêntrico, leva em consideração apenas sua satisfação pessoal, seu ponto de vista e o prazer imediato, sendo assim, numa situação embaraçosa, ou difícil, ela pode inventar uma história para livrar-se dela.

Essa conduta infantil, que é mais próxima da fantasia e imaginação do que da mentira propriamente dita, recebe o nome de pseudomentira. Sem perceber, criança deforma espontaneamente a realidade a partir de seus desejos. Jean Piaget chega a considerar que a mentira está num mesmo plano que a brincadeira e as invenções no pensamento das crianças pequenas.

O adulto pode ignorar a pseudomentira ou confrontar a versão apresentada pela criança com a realidade, sem se valer de ameaças ou punições. Se queremos que a criança se comprometa em dizer sempre a verdade, temos que ensinar a todo momento que a valorizamos e aceitamos verdades, mesmo aquelas que não nos agradam, ou que sejam motivo de decepção.

Admitir erros e delitos não é fácil para ninguém, muito menos para uma criança. Por isso, é importante demonstrarmos nossa satisfação quando, apesar de saber sobre nossa reprovação, ainda assim ela faz a opção de dizer a verdade.

Então, quando seu filho/aluno, admitir uma falha, é importante valorizar isso sem críticas ou acusações, buscando reconhecer sua atitude, sem desmerecer o problema criado, mas buscando soluções. Essa simples ação tende a favorecer sua autoestima e fortalecer o vínculo de confiança entre vocês.

Muitas vezes, nós adultos ensinamos a criança a mentir sem nem perceber. Quando a motivamos a mentir sobre seus sentimentos usando expressões como “homem não chora”. Quando fazemos uma pergunta que provavelmente provocará uma mentira defensiva.

Superar a manifestação da mentira exige um esforço conjunto do adulto e da criança. É papel do adulto informar a criança que identificou algo falho em seu discurso, debater sobre os pontos de vista envolvidos e conduzir o diálogo para um caminho que a criança passe a perceber a necessidade da confiança no relacionamento entre vocês e gradativamente vá compreendendo e importância de se dizer a verdade.

Onde há espaço para o diálogo e onde os delitos são tratados a partir do respeito mútuo, de forma construtiva, com foco na solução, não há motivo para mentir. Isso a criança também aprende!